Memento mori

Estamos acossados por necessidades naturais e sociais. Por entre as brechas das necessidades ou superando-as, momentaneamente, encontramos a liberdade. O amor só é livre se não responder exclusivamente a natureza ou a sociedade. O mundo burguês, no qual inescapavelmente estamos imersos, nos vende a fantasia da harmonia dos interesses.

O glorioso mundo helênico percebeu, contudo, a agonística própria à vida, louvando-a em jogos e competições. Hoje, somos surpreendidos como se o trágico representasse o fracasso e não, exatamente, a substância mesma da vida e do amor. Claro, em cada prateleira de sucesso o conflito precisa, se não ser eliminado, ganhar uma nova roupagem.

O sucesso, na verdade, precisa de um projeto. Assim, ninguém terá que se importar com ventos e tempestades, raios e trovões, doçuras e travessuras que baterem à porta no meio do dia ou na madrugada. Mais propriamente, não importa o meio do caminho, senão a meta: um para onde em que todos seremos, enfim, felizes.

O amor é um caso para deserdados e desgraçados. Para aqueles que fazem do risco um rabisco na pavilhão dos tempos. O velho amor é obra do velho Adão. O novo Adão também amou e ao pó voltaremos. Maltrapilhos, contudo, certos de que a terra é para a cultura. Memento mori – antes que seja tarde demais.

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