Vontade, imaginação, ato

Um dos nossos melhores amigos, que sempre nos acompanha durante a vida, é o esquecimento. A despeito de sua função protetora e curativa, esquecer nos dá a oportunidade de lembrar que velhos amores necessitam de uma reconquista.

No limite, o esquecimento faz com que sejamos quem quisermos, até que uma viravolta bata a porta e nos faça lembrar. O problema é que lembrar é narrar ou, mais propriamente, construir, criar, inventar. E, assim, temos uma história e uma história de nossos amores mais caros.

Amar é a confissão de uma derrota. É confessar a incapacidade da autossuficiência. Amar é afirmar a necessidade. Só dá gratuitamente aquele que tem sobrando, portanto, o glorioso ou o perdulário. Já o amante é um investidor no mercado de futuro. Ele aposta no inventado e crê numa promessa.

A nova conquista é o Fado dos cansados de guerra. Ou bem eles o fazem ou bem renunciam amistosamente à vida. Um novo torpor, uma nova amargura e uma nova alegria são redescobertos. Nada de novo aparece, apenas as aparências, o parecer, doravante, importam.

Um arauto da Bessarábia disse que a ideia de teatro é o teatro da ideia. Sim, a imaginação projeta um mundo de beleza, transfigurado. O ato criador é a livre resposta do homem, este ator-criador.

E assim, quando nada mais havia, eu, também cansado de guerra, reencontro quem desconhecia: Berdiaev e Meierhold.

Vontade! Imaginação! Ato!

Until fade out.

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8 comentários em “Vontade, imaginação, ato

      1. Oi Ramon, se não for demais perguntar, lhe agradeço se você puder me recomendar outros blogs em português com uma pegada parecida com a sua, assim, de criticismo aguçado. Obrigado!

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      2. Roberto, em português, eu tenho o costume de ler somente o Portal Cioran. O Cioran é autor romeno ácido de quem eu gosto muito. O problema é que no Portal os textos têm um formato muito próximo do acadêmico. O que recomendo para você é algo que sempre foi fundamental na vida, as crônicas do Nelson Rodrigues. Aquilo são verdadeiros ensaios. Estão nos volumes, A menina sem estrela, O Reacionário, O Óbvio olulante e Mémórias. Saíram pela editora Agir. Se você não encontrar novo, você pode encontrar pela Estante Virtual. A maioria dos blogs literários no Brasil são dedicados a resenhas de livros. Escreva-me quando quiser. Você pode achar lá no Contato. Um abraço, Ramon

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  1. é verdade, e não basta ser apenas de resenhas, como também, os livros que a maioria dos blogs falam são geralmente ruins! salvo algumas raras exceções, lógico. Certamente, vou buscar pelas crônicas do Nelson, já é hora de me aproximar dele. Valeu pelo toque e por me lembrar disso! grande abs!

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