Tempos fáusticos

Quando nos deparamos com um texto e tentamos enquadrá-lo em um gênero literário, normalmente, atentamos mais para sua estrutura. O texto longo com narrador, personagem e uma história inventada é um romance. Um texto também longo, sem personagem, sobre questões últimas da vida é um texto filosófico. O fato é que nos perguntamos muito pouco por seu efeito, por sua performance. Ou, mais propriamente, como, onde, em que lugar funciona, por quem, onde e como é lido.

Certamente, todo texto possui uma tendência de base. Geralmente, ele é um canto, uma meditação ou um drama. Contudo, o modo como o recebemos dirá se esta sua tendência se confirma. Alguns poemas, por exemplo, recebem uma leitura dramática. Atores representam liricamente, como se estivessem declamando um poema. Um texto filosófico pode estar sob a forma de um diálogo e ser, até mesmo, representado cenicamente, como O Banquete. O Zaratustra de Nietzsche pode ser lido e compreendido poeticamente.

Deste modo, se as coisas forem, pelo menos, próximas disto, a única inimiga verdadeira de um texto é a especialização. Não que o amador, no caso, seja alçado a posição de melhor receptor ou crítico, mas o especialista é incapaz de compreender o homem em movimento. Na verdade, a crítica pede pela polimatia e, em nossos tempos, por certo autodidatismo que só não é absoluto porque sempre existirão bons mestres autodidatas precursores. Na escuridão, no silêncio, no esquecimento, cada texto vai se tornando mais uma camada no palimpsesto das catacumbas.

Nossos tempos, os das especializações, denegam a instabilidade, a indeterminação, a volubilidade, enfim, a escuridão, a noite que habita o universo humano da compreensão da fala, do canto, da meditação e de suas ações – sempre atravessado por outros textos. Tempos fáusticos – O tempora!

Quanto ao que seja o canto, a meditação, o drama, não é propriamente que depende do contexto, senão que tudo convém, desde que seja para sua maior glória – de Deus ou do homem.

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