Um risco e um rabisco

Farei uso, aqui, da noção “momento absoluto” inspirado, mas não sendo fiel, na noção de Leo Strauss. Momento absoluto, para mim, é uma característica específica do pensamento de Hegel, Marx e Nietzsche. Segundo esta noção, tais autores julgam que seus pontos de vista alcançam um grau ou um lugar privilegiado a partir do qual tudo podem ver, para além das imprecisões, carências e limitações do seu tempo e do passado.

Hegel, Marx e Nietzsche parecem se situar fora da história, enfim, fora do tempo, por mais que partam dele, pois somente eles conseguiram ver o que ninguém viu. Trata-se da síndrome de que todo mundo, em alguma medida, está errado, somente eu estou certo, em absoluta medida.

O problema é que, com o advento da modernidade e dos tempos mais que modernos, esta parece ser a nossa sina. Se falamos, se escrevemos, julgamos possuir este momento absoluto. Qualquer sentença proferida por nós parece ter a pretensão de verdade pairando acima de todos os seres humanos. Não se trata simplesmente de estar fora do tempo, senão de estar acima dos demais homens. E, paradoxalmente, não é a busca pela verdade o que nos move, mas a vontade de certeza, ou mais propriamente, importa o sentimento de segurança.

Talvez seja por isso que nos tornamos tão sérios, eloquentes, sisudos e mal educados. A seriedade, hoje, está longe da boa etiqueta e está muto mais próxima do medo de o próprio mundo de conto de fadas desabar. A nossa seriedade pós-moderna não resiste a um dor de barriga, assim como o Espírito Absoluto não resistiu ao cólera.

Somente o riso do clown, do palhaço é autenticamente sério, pois ele devora a si mesmo. O riso é diabólico, ele destrói o homem e sua promessa de felicidade em pedacinhos, mas é uma destruição alegre. Dos pedacinhos ávidos de uma nova embriaguez nasce o carnaval. A seriedade moderna e pós-moderna apenas destrói, sem qualquer alegria, sem embriaguez, sem carnaval. Ela é só uma promessa de felicidade, nada mais.

A seriedade moderna, mais que moderna, é a seriedade dos calendários, dos relógios, dos meses, anos. Já a do riso é a seriedade de uma paixão – um risco e um rabisco.

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