O gogolesco

A fim de localizar os primórdios de sua literatura e da própria literatura russa moderna, Dostoiévski afirma, “todos nós saímos de O Capote, de Gógol”. A ficção russa da segunda metade do século XIX seria tributária daquele peculiar universo gogolesco. Para quem vive de literatura – escrevendo-a ou lendo-a – ela é modo de ser, modo de vida. Se assim podemos dizer a respeito de Gógol, sua literatura, na medida em que possui uma capacidade de nos tocar, tal como tocou Machado de Assis, ela é uma visão de mundo, que também pode ser a nossa ou coincidir com ela.

Nenhum escritor ou nenhuma ficção deixa de lado a particularidade, as singularidades. Mais exatamente, os romances, os contos, as novelas se nos apresentam quase banais com suas vilas, ilhas, povos, costumes, personagens idiossincráticos. Só assim, contudo, que nós nos vemos; no outro extremamente diferente, quanto à época, lugar, no outro inventado, encontramos semelhanças de família. Na ficção, as diferenças específicas não nos conduzem para a indiferença, senão, para a simpatia.

Isto vale, pelo menos, para o gogolesco. A linguagem abstrusa e o estranhamento que ela nos provoca, ao invés de distanciamento do texto, nos convidam à intimidade com o grotesco. O grotesco em Gógol não é a mera decomposição da figura humana por si mesma, não é um simples gosto pela destruição, não é apenas negar por negar. Sim, trata-se de negar, mas negar o que é estável, definido, absoluto.

Negando a estabilidade – da linguagem, do enredo, da figura humana, do psiquismo, das posições sociais -, Gógol nos introduz o riso. Quem ri se abre para a surpresa, quem ri diante das inúmeras destruições que a vida apresenta está pronto para aceitar o milagre da gratuidade da vida.

Com Gógol, aprendemos, se ainda não a tivermos, que o cômico é uma visão de mundo, pois nada de bom há de vir do que dura e somente o riso é sério.

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