A política e os Grandes Livros

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Somente nos importa o conhecimento daquilo que está remetido ao humano, pois, obviamente, é deste conhecimento que fazemos uso para nosso bem viver. Sempre tivemos acesso aos primórdios do homem, às suas fundações, mas este conhecimento nos é obnubilado.

Os primórdios e as fundações do homem se apresentavam sob a forma de um véu, sob a forma de uma narrativa de natureza mítica. A narrativa mítica fundadora de um povo, de uma comunidade é mais que um bela história encantadora. Seu papel é a humanização, a civilização de um passado brutal.

Insisto nisto porque, nos dias hoje, é desconhecido, por aqueles que aspiram a uma nova ordem social, o significado de sua fundação. Toda ordem tem suas raízes em atos de violência e brutalidade. O meu e o teu, a ordem legal está baseada na força bruta. Como podemos saber disto?

Não podemos recuar no tempo até o momento do salto do animal para a homem. Mesmo se o pudéssemos, não nos seria facultado conhecimento algum, pois só nos importa o conhecimento, minimamente, daquilo que está remetido ao homem, ao seu bem viver. Podemos, no entanto, perscrutar o funcionamento da ordem aqui, agora em nosso meio.

O interesse da posse não é determinado, primeiro, pela vontade livre do sujeito consciente. Isto só se dará, logicamente, no momento posterior, quando o ordenamento jurídico estiver constituído. O interesse da posse é constituído por necessidade natural, arbítrio, fantasia, libido, desejo. O que garante a existência do meu e do teu não é a consciência de si, senão a existência da polícia, ou mais exatamente, o temor do castigo.

De tal forma que, compreender o outro como sujeito de deveres e de direitos é o fim. Trata-se da última etapa civilizatória, etapa da mútua compreensão reflexiva em que os sujeitos se compreendem a si como sujeitos de deveres e de direitos. Na vida social, comunitária, entretanto, o sujeito não é apenas consciência, é desejo, libido, arbítrio, fantasia, carecimento natural.

Assim, à fundação de uma nova ordem social não bastarão foice e martelo, como bem sabia Lênin. Na falta de deuses e lendas, trata-se de reescrever a história com a ajuda de bons mitômanos. Quanto a nós, mais viris e mais cansados das promessas do amanhã, ainda apostamos na miséria da política e na beleza dos Grandes Livros.

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