A letra

O pensamento e a ideia, a rigor, não existem. Ou, mais propriamente, pensamento e ideia precisam ser negados, trabalhados. Assim, o pensamento e a ideia só existem enquanto livro, artigo, ensaio, romance, poema.

Digamos, generalizando, que o efetivamente existente é o livro, pois somente ele pode ser meio para que a comunidade tenha acesso à ideia e ao pensamento. Enquanto estiverem somente na cabeça do pensador, pensamento e ideia não existem, somente são algo ou somente estão aqui ou ali.

Afirmo isto a propósito da presença de “homens supérfluos” em nossa vida social de hoje. O que era um fenômeno tipicamente do século XIX russo ganhara agora uma atualização. Homens bem informados, alguns eruditos, capazes de planejar o futuro ou vislumbrar bonança ou catástrofes – que, na verdade, são incapazes de ação.

Seja dito, todavia, que o homem de ação é a besta-loira, aquele incapaz de pensar sua própria época ou sair dela por meio da abstração, transforma o mundo por meio do terror. A besta-loira, todavia, é moralista e conformista. O que se espera da intelligentsia não é propriamente o terror ou o metabolismo com a natureza, o trabalho, senão, outra forma de objetividade.

O drama do homem supérfluo, do inteligente se revela no seu modo de proceder. Ele apenas fala ou, ainda, ele é um homem de ideias ou da ideia, do pensamento. Ora, ideia e pensamento só existem se forem capaz de objetividade.

Ideia e pensamento necessitam ser trabalhados, negados pela mão humana, transformados em livros. É justamente este passo que o homem supérfluo, o inteligente, o culto, o esclarecido não dá.  Ele prefere iluminar consciências, esclarecer, palestrar, levar a luz à obscuridade, convencer.

Certo, a letra mata o espírito. Neste mundo, contudo, não há chama que não se apague.  O livro é o meio, senão o melhor, o possível, de guardar os vestígios de que em algum momento existira a luz.

Anúncios

2 comentários em “A letra

Os comentários estão encerrados.